Tatuei escrevivência no corpo, e linhas que representam o mar para nunca mais esquecer. Escrevivência é um termo/conceito/pensamento desenvolvido por Conceição Evaristo, escritora e doutora em Literatura (UFF), nascida em Belo Horizonte (MG) em 1940.

Penso muito no que a Conceição Evaristo fala sobre ver, viver e se ver, sobre ser corpo negro que transita e escreve baseando-se em si, nos ancestrais que já se foram (mas nunca vão), e toda ternura-poesia da memória e inventada fortemente existentes em suas obras.

Becos da memória (2006) deveria ser leitura obrigatória para todos que residem nessas terras do sul, especialmente, para nós negros-brasileiros, em diáspora. Personagens negros plurais, indivíduos que se autoagenciam, como costumo dizer, pessoas que sentem, que choram, que amam, que estudam, que querem conhecer o mundo, etc. Ler Conceição Evaristo é atravessar ou nadar em um mar cheio de memórias trazidas também do outro lado do Atlântico. Como dispensar uma sabedoria tão grandiosa? Como ignorar a África que existe dentro de nós? Impossível.

Autora também de Ponciá Vicêncio, Poemas de recordação e outros movimentos, Insubmissas lágrimas de mulheres, Olhos d’água e Histórias de leves enganos e parecenças, a escritora está concorrendo a cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras (ABL). E estamos aqui apoiando e pedindo para que você participe da campanha popular que apoia esta grande artista – clicando nos links abaixo.

Será muito importante termos a Conceição Evaristo na ABL dando continuidade ao seu relevante trabalho literário que veementemente representa, abraça e afeta os seus, o seu povo.

Vozes-mulheres

A voz de minha bisavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
De uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
No fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.

A voz de minha filha
recorre todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.

In Cadernos Negros, vol. 13, São Paulo, 1990.

 

#ConceiçãoEvaristonaABL

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